De pernas pro ar!

sábado, 22 de março de 2008

Pensando nisso...

"A palavra é podrer. Ao esgotar seu significado, esgotamos nossa permanência". Fabrício Carpinejar

A idéia de um discurso veio pronta à minha mente. Minhas opiniões e questionamentos pareciam tão plausíveis quanto um abraço viria a calhar bem naquele momento.

Me sentia como detentora de um bem estimado por muitos. Ganhadora de um prêmio deveras concorrido.

De imediato, um frio percorreu por completo minha espinha. Um medo, ou talvez uma insegurança, teimou em me dominar. Aquela repentina reação fazia sentido.

Meu intelecto, até então preguiçoso, sentiu as cãibras de uma vida sedentária. Para onde teria ido meu vocabulário? As poucas palavras que conheço teriam que dar conta do recado.

Mas seriam elas bem interpretadas? Conseguiriam elas transmitir tudo aquilo que há muito tento explicar? Fazer sentido era o que menos me importava. Minha recente pretensão já se encarregava das minúncias negativas que poderiam me afetar.

Em poucos minutos incontados, o texto estava lá, pronto para ser lido e julgado. "Ele se foi", era como o texto começava. mas a frase poderia, sem esforço, encerrá-lo. Seus grandes feitos e revoluções iniciadas em seu nome estariam, a partir daquele momento, privadas de seu autor. Um nome sem personagem.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Muito além

Muito além das palavras.
Onde tudo que existe tem razão para existir.
Onde há o encontro de todas as almas.
Azul, amarelo, branco e vermelho.

Planos que coincidem sem razão.
Tornam vidas inclusas numa só construção.
À noite coisas novas acontecem que nem mesmo o sol tem vontade de saber.
Vou dormir agora e sonhar com você.

Essa luz que faz abrir os olhos também me cega.
O barulho incessante do movimentado dia nessa cidade me agita e me aborrece.
Não tomemos nossas fraquezas como principais características.
Posso ver em você algo incrivelmente planejado por Deus.

Pegadas marcadas com fé nos levam aos caminhos vitoriosos.
Não querer se comprometer é natural.
Mas não tente me convencer que fugir é a melhor saída.
Podemos criar um futuro fundamentado em tudo que de positivo há.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Irremediável pecado dos fracos

A raiva é um mal que possui o corpo.
O pecado da ira se apropria de forma inconsciente.
Toma conta.
Aprisiona a lucidez e liberta os mais profundos instintos.

Agentes externos são os causadores.
E se não os são, provocam o desagrado.
Uma ebulição de sentimentos se inicia e mesmo que haja tentativas de sessá-la, tudo se consegue ver, é nada.

As veias saltam à tez.
Os pensamentos surgem como se não viessem de mim.
Na verdade, nesse momento eu não sou eu.
Sou tudo aquilo que a tempos escondo ser.
Me torno aquilo que todos sempre fingiram não haver.

Em poucos segundos meus batimentos cardíacos aceleram a ponto de desordenar todo meu organismo.
Sinto uma lágrima escaldante correr sobre meu rosto, tomado pela vermelhidão sanguínea, que parece poder fazer evaporar o resquício de lágrima que me sobra.
As mãos logo ficam trêmulas, a voz embargada e o nó na garganta fica difícil de engolir.

E é nesse momento que acontece a explosão.
Grito em notas que meu pulmão quase não consegue acompanhar.
O ar me falta e os berros começam a rasgar a garganta.

E então surgem palavras mal pensadas, recombinadas durante tempos.
As mesmas palavras reconstruídas e reformulas para a resposta daquelas que vieram de encontro a mim, com as mais invertidas intenções.
Agora não há mais como se segurar.
Não há mais motivos para se segurar.
O que precisa ser dito será dito para desabafo da consciência.

Foto por Thabata Guerra.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Nosso presente futuro

Direi palavras doces enquanto estiveres por perto.
Tu podes não acreditar, mas meus sonhos são tenros e verdadeiros.
Assim como os primeiros raios de sol me acordam nessa manhã.
Podes sentir meu coração batendo acelerado nesse momento?
Abri meu coração para que possas experimentar essa novidade comigo.

Sentirei vontades intermináveis.
Tu podes não acreditar, mas meus olhos estão repletos de tudo que em ti há de bom.
Assim como os primeiros olhares trocados entre nós.
Podes sentir minhas mãos suando nesse momento?
Abri meus olhos para que eu possa experimentar essa novidade contigo.

Convocarei todo o universo para testemunhar a nosso favor.
Não vês que estamos sendo julgados por sermos tão felizes?
Mas confesso que somos culpados.
Roubamos amor um do outro e seqüestramos a felicidade de todos os que não nos deram valor.

Desejarei estar em vários lugares estando em um só.
Porque contigo meus passos se perdem e meus caminhos dão voltas e voltas.
Só você consegue acertar no que os outros erram.
Nosso momento está no futuro, esperando a cura do presente.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Projeto solo

Levante-se e diga a todos aquilo que está engasgado.
Faça de seus sonhos, realidade.
Culpe somente a si mesmo por seus fracassos.
Ame suas lutas porque são elas que te levam às vitórias.

A paz de sua alma só você pode conquistar.
Deus ilumina os passos, mas os caminhos seguros só você pode criar.
A felicidade se apropria daqueles que são merecedores.

Pobre criança bem nascida com futuro planejado.
Não cabe mais a ela viver.
Sapatos novos que caminham num caminho já gasto.
Escorrega no limo deixado por aqueles que por lá já passaram.

A paz de sua alma só você pode conquistar.
Deus ilumina os passos, mas os caminhos seguros só você pode criar.
A tristeza se apropria daqueles que são merecedores.

Deite-se a noite e diga pra si mesmo que sua missão foi cumprida.
Fale para seus sonhos que você fez a sua parte.
Se reconcilie com sua consciência.
Ame suas vitórias porque elas são obras de sua trajetória.

Foto por Ludic

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Comunicar-me-ei ao longe por dentro

Não precisa me olhar assim pois compreendi tudo quando parou de falar.
Essa comunicação existe quando a mensagem que se deseja passar chega a seu destino com o sentido original.
Pense o que quiser que eu me encarrego de lhe interpretar.

No dia em que puder crer no que é formado a partir de singelos olhares, irá contactar que as almas também se comunicam.
Tudo o que for capaz de desejar expor, transcende a você.
Como uma gestação não premeditada que tem seus sinais tão óbvios.
Concebe algo inimaginavelmente poderoso.
Cria em meio a novas concepções aquilo que subversivo está pela sua natureza pretensiosa.

Nesse ritmo interclassificatório não é possível fazer rimas, pois os finais não são os mesmos.
E os meios se autojustificam durante a execução dos versos.
Lendo o amplo e irrestrito de tudo o que foi escrito pelo irracional coração, a confusa conclusão confunde até o criador.
E lá vamos nós nos deixar levar por tudo que se encaixa, desencaixando o que veio de fábrica.

Interrogações interrogam cada exclamação subentendida naquilo que transmitiu intencionalmente.
Tem como resposta a verdade inventada pela experiência.
Mas acredito que nessa confusão de se comunicar, não consiga me entender.
Perdoou. Perdoou porque sei que o signo muda de significado de acordo com o querer da mente de quem recebe a mensagem.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Faço parte do processo

Ando por aí me apropriando de frases alheias.
Mas o que é da vida a não ser um monte de idéias dos outros?
É que ele disse tudo.
Tudo o que há muito eu queria dizer mas não encontrava as palavras.

Na hora da criação, a mente se esvazia.
O papel parece mais branco a cada segundo.
Impossível encontrar posição confortável para meus cotovelos, e as costas dóem.

É quando deito a cabeça à noite e espero a chegada do sono,
que aparecem as idéias que procurei o dia todo.

Não me culpes por ser incapaz de criar belas canções ou poemas.
São poucos aqueles que conseguem traduzir seus sentimentos em palavras.
Todo esse emaranhado de construções gramaticais que tens visto por aí não tem nada de coração.
Fragmentos de pensamentos alheios, parte de coisas boas dos outros.
E eu realmente sou incapaz de criar a perfeição daquilo que procuras.

Saber que consegues ler minhas entrelinhas,
faz minha verdade aparecer instantaneamente em um texto pronto.
Saber que o meu melhor faz de mim parte do que mais gosta em nós,
cria uma segurança jamais imaginada para alguém tão sem pretensão como eu.

Meus sentidos se aguçam e começam aos poucos a fazer sentido.
Ouço e logo escrevo. Vejo e logo crio. Leio e logo imagino.
Mais e mais me torno capaz de superar tuas expectativas.

Aguardo teu sinal de aprovação, como um bom servo que está a serviço de seu senhor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Quando chegar o momento certo

As respostas que tu procuras, eu certamente não posso dar.
O caminho que tu queres seguir, eu provavelmente não posso indicar.
E o carinho que agora tu podes sentir, é tudo o que posso oferecer...
Já que aquilo que lhe ofertei foi extraviado durante a viagem.
Mas se a distância permitir... me procures quando o momento certo chegar.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Mas eles apodrecem, fazer o quê?

Morangos Mofados, livro de Caio Fernado Abreu. (Agir, Rio de Janeiro, 2005, 158 páginas). Publicado originalmente em 1982, a obra mais conhecida de Caio Fernando Abreu traz inquietações e constrangimentos, tratando do cotidiano de indivíduos que estão sufocados em suas próprias vidas e histórias. O escritor gaúcho, nascido em 1948, na cidade de Santiago do Boqueirão, atuou como jornalista, escritor e editor de livros. Lançou onze livros e foi traduzido para diversas línguas.

“Morangos Mofados” trata de contos que aparentemente não possuem o mesmo viés, mas que, ao fim do livro, parecem se trançar, tecendo narrativas sobre um tema em comum: a fragilidade e a intempestividade de ser humano. O livro é dividido em três partes: “O Mofo”, “O Morango” e “Morangos Mofados”. Os contos de o “Mofo” foram assim classificados já que passam a ligeira impressão de que as relações neles narradas estão em estágio de decomposição, seja por falta de estímulo, seja por agreções sofridas por ambas as partes. Os contos do “Morango” possuem uma temática diferente, no que se refere ao conteúdo das relações narradas, porém não fogem do tema principal. Morangos Mofados é o último conto e consegue encerrar o livro dando um fio de esperança nas relações existenciais, apesar do provável fracasso esboçado pelo autor.

Os contos abordam o fracasso daqueles que, de alguma forma, possuem dificuldade de comunicação, seja ela com o próximo ou consigo mesmo. Em uma atmosfera excessivamente urbana, as personagens compartilham de angústias nas quais estão presas. Em vários contos, as personagens se utilizam de formas diversas de escapismo, como drogas e relações sexuais. É possível perceber uma leve conexão entre a problemática de cada conto, por exemplo, o embaraço do auto-conhecimento. Barreiras tanto existenciais quanto sociais também estão presentes, a solidão, a frustração, o erro no julgar o outro, a não-adaptação ao próprio corpo, o homosexualismo, a desigualdade financeira, o desapego à vida. Muitas narrativas chocam pela linguagem utilizada pelo autor, com o uso indiscriminado de expressões chulas ou deveras coloquiais.

Caio Fernando Abreu apresenta em “Morangos Mofados” o estilo pouco rebuscado presente em literaturas da contracultura. Movimento dos anos 60, em que os jovens inovaram estilos, voltando-se mais para o anti-social, focado principalmente nas transformações da consciência, dos valores e do comportamento, e pequenas realidades do cotidiano. O texto de “Morangos Mofados” dificulta o entendimento por falta ou inadequação das pontuações, mas que, por vezes, dá liberdade de interpretação ao leitor.

Um livro repleto de conflitos fortes e marcantes, que trazem à tona discursões pouco usuais, principalmente em se tratando do período em que foi publicado (anos 80). Cada conto tem uma evolução gradual de conflitos, que prendem e perturbam a atenção. Personagens dignos de pena, mas que remetem a uma identificação com o leitor muitas vezes constrangedora.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Um breve comentário sobre o caso da jovem presa com 20 homens no Pará

Uma moça, uma jovem, uma menina recém-tornada mulher. Aos 15 anos cometeu um erro, um crime aos olhos do Estado. Foi presa por furtar, mas a condenaram por um crime maior, um crime muitas vezes imperdoável, mas em alguns casos, afiançável. A jovem foi condenada por ser mulher.

Dizem por aí que ela é culpada. A mulher é uma cobra que envenena os homens contra seus próprios extintos. Dizem também que quem erra tem que pagar, independente da natureza do erro. Poucos têm coragem de dizer que a moça era quase uma menina. Menina que foi vítima de violência. Usaram sem excrúpulos, seu corpo e sua alma.

Pouco se ouve sobre aqueles os quais não se pode culpar. Nada parece acontecer aos que tinham o dever de guardar e proteger. Homens condenados por crimes que se sentem no direito de cometer outros crimes. Outros homens que cometem crimes amparados pela lei.

A nitidez da podridão do Sistema Carcerário no Brasil parece não mais nos abalar. É bem verdade que nos dizemos revoltados, mas nossa atitude não é de revolta, é de omissão. O Estado fechou os olhos para o problema, e a sociedade se calou diante das consequências.

Para situar:

http://www.cabecadecuia.com.br/noticia.php?id=14178